sexta-feira, 13 de março de 2009

sem que se arquitete a dança
não se ópera
sem que se manifeste o ópio
não se lâmina
sem que se ferro a frio
não se enche bucho

quinta-feira, 5 de março de 2009

sonsa

o teu poema lido
a minha voz lendo ele
por sobre as letras meus olhos viram
te recitam
a mão se contém na sala de aula
tua língua viva me roça o papel
do ouvido
tragando as coxas
dentro cálida
por fora uma página pálida

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

autobiografia

todos os amigos se importam
e têm algo a dizer
mesmo que não falem nada
as coisas da minha vida
somadas às coisas da sua vida
mais a vida dos outros
é base de muita conversa
papo-furado de botequim
roteiro de filme
mesmo os nomes, usamos
sem pedir licença
tá tudo em família
(por sorte, ninguém aqui me quer mal)
e o dito hoje
passados os anos
que efeito?
eu, que em botequins fui ingrata
fui meretriz, fui fraude, fui ladra
estou hoje sendo lida com gosto pelos bebuns
estou hoje bebendo com gosto sua posição
é a vida
uns vêm, outros vãos
eu, que sempre estive cabisbaixa, enxovalhada
escrevendo minha impotência ante a hipocrisia
escárnio sem pretensão
me dando ao luxo de sorrir
nesse mundo de filha da puta
mas todos, amigos,
sabemos que tem coisa que se fala sem pensar.
sabemos da grande mãe relatividade,
que olha por nós agora e na hora de nossa morte
que olha por nós quando pecamos
quando maldizemos
quando praguejamos
e mentimos
porque todos mentimos
com esse nosso riso sentido e maquiado
porque todos não entendemos o porque
mas nos viramos uns contra os outros
e nos pusemos outros contra os outros
e com isso aprendemos como se dirige o mundo.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

bem branquinho

o ofício descoberto pela manhã entre os pássaros
a temperatura que nos abandona ao estro o amor
desvelando assimetrias de alguém que nos permita o hoje
e nesse dia outro o sol respira
e os edifícios ofegantes não percebem não desabam
eles nos deixam flexíveis e encostados
por ocasião da atmosfera embaraçada dos motivos

(para o sebastião, com palavras dele, só dele)

sábado, 29 de novembro de 2008

longe dos motivos e das sobras

.
por ocasião da manhã descoberta entre o ofício dos pássaros
e o meu
a temperatura branca em cada mínimo abandono que nos recebe
inclusive do amor ao estro do amor inclusive
porque certo respiro basta
o azo de lavar a voz com o dia fasto a água que te ilumina

por parte do sol que me dispara em confissão de completude
a mesura assimétrica de um silvestre mais íntimo
que nos concede atender e ancorar
inclusive o torpor de cada acerto inclusive
porque justo bebedouro o é a casa que te levanta a manhã
e me germina
.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

da fertilidade e do precipício

Minha poesia pode não ser estéril se eu souber discernir sem separar. Minha poesia pode ser lança e servir só de espeto de papel. Pode ter carne, pode ser brisa. Pode nem ser como por mim não tenho sido. E a primeira pessoa nem sempre é de mim, nem sou mais vivo. Passarias perene por entre plumas molhando e murchando tão sutis, tão de propósito: o de não morrer ainda, de estar na superfície flutuando, sem peso algum. Calha de ser meio-dia, mas não saberias a hora, o dia, sob efeito de que estou.
Um espeto, um peso, um aviãozinho de papel, um papel, um estilhaço. Tinta vermelha, folha de estanho. Quinze pras cinco, meu deus, meu deus. Não se demore, não seja breve, cale-te aos poucos e puxe para si o que te dei e não me coube jamais. Possua como Deus marionetes, como o vaso um jardim potencial que engana a flor engana a flor.
Ser teu abrigo? Não, primavera, não me cause tanta cor, peito que ressente o vaso fértil e pouco, tão adúltera, tão vasta vista, a gravata às seis da manhã e é tanto o número, tanta a hora, tanta a letra que o telhado se me curva e empena as portas para quem puder entrar.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

libélula

tudo isso é de um quente imperioso do qual não sou capaz. sou agora do tamanho da casa e não hei de estar maior que isso tão logo, e quando não chegas sei mais ainda qual norte minha bússola aponta. não há por onde eu entender-me com vivos, tampouco com os mortos, sei de todos eles e oro, mas sei menos ainda de ti, se comes e se andas, se chamas ferroadas de dor. não foi assim que dipus o Amor, quando éramos os artesãos, éramos também iguais, tuas costelas mediam exatamente como as minhas, somos pessoas longas e estreitas, temos pernas enormes e barriga branca e agora o que é isso que levas à boca ? tu cospes ou tu engoles enquanto aperta os olhos de tanta amargura e necessidade ? quero entender, já não sei nada do que me falas e tento encher o vazio com qualquer coisa que o desespero me põe nas mãos. o embaraço de nos vermos ocos é maior do que a busca mole e contundente pelo gozo que gozavas por cansar. dormes, também dormi e na indolência do descanso pensei a mim, mas não como pensas que a mim me penso, pensei a mim na angústia de ser gente e me desejarem musa. NÃO sou pintura nem poesia, sou matéria e matéria extensa como a tua que vive sob padecências e injúrias, matéria que re-puxa a si mesma por gozo de traição. sonhei duas vezes que de minhas mãos brotavam borboletas, duas. em outro momento, brotou uma violeta, assoprei bem no miolo e voaram joaninhas, mas não é como tu imaginas. nunca é como imaginas. nessas horas tenho certeza que o Amor é mesmo esse que agora pousa ao meu lado, por mim e só. 
acusas com tanta doçura que limito meus amantes à solidão, como tu agora sozinho, engolindo coisas, falando arrastado, dizes mesmo que tens o punhal da vida de mim nas mãos, portanto vá e corte. afunde o fio fino e corte sem tempo de jorros. alguma parte de ti há de fazer renúncia e lutar comigo. uma vez que fendas em mim foram abertas, é fácil lograr meus atos, tenta. anuncia cansaço, homem !, e permaneces com ombros fracos. faça uso de tua música, de tua indiferença, do teu Nada, faça uso dos teus pés de santo, faça uso do teu peito que pinga finas gotas de sangue e ouças ! eu preciso que ouças porque nada é dado a mim além do benefício da dúvida. essa tão chamada punição que me dás justifica todo o meu Amor porque em mim pousas feito libélula, não pesas, sentes raiva ? pegas fogo, mas não pesas. amas a mim ? não vá fumar outro cigarro, amas a mim ? me desejas ? pois vires de frente e toma-me e que seja até o talo com a sutileza destes teus dedos de harpista, até o talo, CONSEGUES OUVIR ? eu disse toma, eu disse talo, eu disse dedos e tudo se funde nessas asas de libélula que fazem sempre o favor de não pesar. te irritas com as lacunas que deixo nos nomes das coisas, porém se viesses saberias que tudo não tem nome, até o que muito parece ter. gosto particularmente quando falas do teu tempo, gosto um tanto quando pronuncias rápido as palavras enquanto lê teu poema coxo e perguntas se acho alguma coisa. não consigo entender a ti, fazes um esforço enorme para que eu jamais entenda. chamas de AMARGO o que eu chamo de CORAGEM.
não te faças de ausente, não te faças distante, ouço os cascos, ouço teus ossos trincando, o espaço é maior que um braço, mas há querenças gigantes - toma aqui a ponta dos dedos meus. amar o Amor que entremeia todas as perdições nada tem a ver com o toque, precisas apenas falar. DISSESTE PALAVRA, POR DEUS !, não te assustes pois em pouco tempo finda-se toda a madrugada e poderemos ser vivos, desfaz essa cova, desfaz esse paletó, adia tua morte junto com a minha porque hoje já somos mais.
beirando o sono nos confins de um dia enorme, teu timbre treme na Palavra, mas passa. tua poesia é manquejadora, mas presta. podes parar agora de repetir porque ainda podemos louvar o Amor sem exasperar. cale, querido, cale em condição de criança e componha o mundo.
teu mastro de sangue só a mim sobe quando ponho meu corpo de joelhos diante do teu umbigo e rogo

um pouco

desata frouxo em mim enquanto a meia-noite é miúda no apaixonamento de poder estar de fronte
meu amor é pouco aos teus cuidados-Nada, sinto que estou sendo os dedos que dissolvem a ti
enquanto nó 
somos fita de cetim

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

vespertino

é preiso compreender a folha caída
como eu rejeito essa torta
essa quase simétrica eu gosto
no meio do teu livro
um pássaro rasante feito raia
o vento ondinando ele
a copa imensa dava três árvores
feito galhos, a gente se entrelaça suspensa
qualquer coisa a gente vai praquela outra
e dali, um cara nos tirou do respiro

fui embora pra casa meio de anteontem
aquela vela tanta no chão
a lumeeira de dentro
um jasmim-manga
a mais e uma vida

terça-feira, 7 de outubro de 2008

poema para partir

volto para casa diferente do relâmpago

entretanto o luzeiro são ruídos que faço
na atmosfera embaraçada no destino na fala

encosta os teus gestos flexíveis na parede
vê se o resto do edifício desaba

a escrita é uma visitação abandonada

arruda rosa

vaqueirinho sebastião encomendou reza
sá donãna põe a veia no lugar
o sol se aguçando no ombro dele
chega

nome de bicho eu lembro de manso
de assustado de esquecido de medo
que nunca tiveram fim na mata cheia
as histórias do meu corpo negro
e grosso e encarnado
no corte do meu cabelo feito de fogo
e reses

vaqueirinho sebastião que peço lume
sá menina é boa gorda de coragem
a vereda mudando pro sossego no joelho dele
chega

nome de estrela eu sei de ponta
de rabeca e de besouro
que deram fim na areia arruda
rosa do tempo
e figas

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

sob os olhos

o que me faz reclinar

as costas os punhos

saltando dentro a lente o orifício

a bilha o diamante o saco as contas

o susto a ordem o desemprego


taquicardia

me faz reclinar a declinação das cadeiras

a caveira as pestanas

o latim genérico


postos fora os óculos

toda a epiderme suga de longe

os fatos o tapa o erro

a música, a nossa música

que vêm de fora

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

de volta

sebe
quando eu era triste e feliz
a minha bebida preferida acordando os balões
e a cacimba velha velha de rocios claros
quando havia tu ânfora tenra para toda sede

sabes que a terra é grande
jocunda que não importa o relento
a que as escolhas direito vão dar

o meu feitio é de espera e magma
e aro
que haja tu paineira prenha ao sol sebe
quando eu abro sua boca e me estou à mão

é então que eu sou feliz e sou triste
e o teu contorno vai no céu e volta

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

onze-horas

eu falo das flores eu falo do orvalho
e tudo de mim se desata do lírio
espero um dia de sol
e estou sentado à sombra
quanto mais eu leio
mais vazia a folha à minha frente suplica

desnuda a cada linha que publico
a cada linha que escondo
a cada outra que nem deixo vir
pelo menos mais setecentas páginas

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

para Fabio S.



de lonjuras me pus ao chão, os braços fazendo cruz e pequenos versos vieram a mim chegados de um anoitecer turvo empretecido, era fervura inteira a minha pele e na incandescente superfície tua me borbulhava de temor e estado de glória, quis morrer pelo luto das minhas próprias palavras, mas não poderia ser assim esses braços cruzados em prece 
eis aqui meu regresso e por esse motivo vejo tuas feições padecentes de medo, há pouco resignei em mim que não mais te veria - te veria em muitos outros, agora aqui estou muito viva e força é o que a mim não falta
força mesmo é quando te afastas e só que estou sendo produzo versos através da amendoeira
imperiosa ? sou é fraca
sozinha em mim o tempo transmuta-se em luz
estive à sombra da amendoeira já que a brancura das paredes queimava de mim os olhos pendentes e secos aos extremos de minha própria carne
eis aqui minha via de excesso

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

adornando

a recordar caminhos outros de mim
percebo o fluxo diferente de meus corpos
parece que mudam, corpo e mente, a tempo vário
e que me esqueço de quem sou
e me fui tantos que nem sou nem
sei apenas quantos passos fui afora
margeando covardia
"verão sagrado que sou"
verão que nada
todos de gelo pontiagudo
eu minhas pétalas
adornando túmulo

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

"entregue suas palavras numa folha de aula"

poema de julia pastore


seus olhos pronunciam
meu filho
chutando de outra mãe
o seu que não assumi
por não assumir a mim o pai
ele terá meus olhos
que o buscaram por todo o vazio
(e teria sido o mesmo
com o ventre mais largo)
sim estou sentindo
algo que não amor mais
não nostalgia nem vontade
estou a sentir
estou a conjeturar o sim
os talvezes
e a viver os nãos

domingo, 27 de julho de 2008

Poema na Cantina

no processo de formação do
botão de mim mesmo
(universidade)
posso provar todas as formas os
aromas, as cores.
em um momento há que se
optar por uma para ser
e levar a amargura de todas as outras
para dentro da terra e fincar
raízes sedentas pó adentro.

não é para ser lírico
que eu meto o dedo na flor.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

tapera taperinha

tapera taperinha
que eu assentei por cima da idade
tão encontrada na lasca de minha andança
na eira a lâmpada que forna uma voz
tua súbita voz sobre o rio da cura

taperinha que a madeira fazia minha
família toda de remanso e azul
podia bater palma pedir informação barbante

tapera que era de se esperar chuva
marcada para tinir dentro em quanto
da gente com o queixo no tempo
chega a estrada se larga em rima terçã
tapera taperinha